6.2.09

Desce?

– Tá quente hoje, né?

Arnaldo se arrependeu das palavras no exato momento em que foram ditas. Que bola fora, pensou diante da lindíssima loira de corpo escultural, vestido provocante, óculos escuros tamanho família e uma perfeita boca pintada de vermelho-sexo. No apertado elevador, a loira deu um sorrisinho amarelo de milésimos de segundos, meneou a cabeça ligeiramente e voltou à posição estática de poucos amigos. – Mané! Mané! – disse Arnaldo sem permitir que o som lhe escapasse da boca. Ele não se perdoava por tamanha falta de tato. Sentiu-se um “sem noção”, como diriam os mais jovens. Nada lhe adiantou as horas e horas na frente da TV assistindo aos mais diversos documentários. E as leituras das caras revistas que assinava para nunca ficar sem assunto, então? Os anos de convivência com os maiores intelectuais da cidade também não lhe serviram de nada. Na hora em que mais precisou, disse o que qualquer um diria. E com um agravante: nem calor estava.

O elevador continuou descendo. Arnaldo não via a hora de chegar ao térreo para esquecer a gafe do dia. Três andares abaixo a porta se abriu e um motoboy com o capacete apenas na metade da cabeça entrou carregando uma caixa térmica gigante China in Box. O espaço que já era apertado ficou ainda mais restrito, obrigando a loira a dar um passo para trás. Que perfume é esse, meu Deus? É perfeita demais para ser verdade, pensou Arnaldo com o nariz quase colado na nuca da moça. Teve uma vontade incontrolável de morder aquele pescocinho. – Vai vampirão... Vai acabar de vez com sua reputação – disse-lhe uma voz interior. Achou melhor se conter. Respirou fundo para poder sentir mais um pouco da fragrância e se arrependeu. O forte cheiro de shoyu que exalava da caixa térmica começava a tomar conta do pequeno ambiente.

Cinco andares abaixo a mistura “perfume de fêmea no cio” mais “restaurante chinês da esquina” causava náuseas em Arnaldo. Com o estômago embrulhado ele rezava para a viagem acabar logo. Ao passar pelo primeiro andar o elevador parou novamente. Arnaldo xingou em pensamento o preguiçoso que não usou as escadas. Mas a porta não abriu. Mais dois segundos e nada. Cinco e nada. Em vão, o motoboy apertou o botão que abre a porta. A loira suspirou com impaciência. Arnaldo não acreditava que aquilo estava acontecendo. Pediu licença, deu um passo à frente e apertou continuamente o botão de emergência. Como nada aconteceu, pediu ajuda ao motoboy e juntos tentaram forçar a porta na intenção de abri-la. E como se nada mais faltasse acontecer, a luz do elevador se apagou.

– Oh, my God! Era só o que faltava – disse a loira com uma voz esganiçada.

Em meio à escuridão, Arnaldo achou estranho uma mulher tão bonita daquela com uma voz tão feia. Nunca tinha ouvido nada tão esquisito. Coisa mais bizarra, pensou. Mas isso era o que menos importava naquele momento. Ele não via a hora de sair logo daquela situação caótica e, tentando abrir novamente a porta no braço, ouviu o que parecia uma galinha-d’angola aos berros: – Help! Help me please! Socorro! Help!

Como se não fosse o bastante estar preso num elevador escuro tendo que respirar aquele ar insuportável, Arnaldo ainda era obrigado a ouvir uma mulher histérica gritando em inglês e com voz de taquara rachada. Já não suportando mais a situação, esbravejou a primeira coisa que lhe veio à cabeça: – Cala a boca, senão eu vomito em todo mundo. O silêncio pairou no ar. Até o cheiro pareceu dissipar. E como num passe de mágicas a luz se restabeleceu, os motores do elevador voltaram a funcionar e em poucos segundos a porta do térreo se abriu.

Sem entender muito bem o que tinha acontecido, os três ex-confinados alcançaram a liberdade. O motoboy com um sarcástico sorriso estampado no rosto deu um tapinha nas costas de Arnaldo e agradeceu: – Valeu, chefia. A loira com a mesma cara de poucos amigos, mas calada, virou o rosto e saiu rebolando. Parado no hall de entrada do prédio tentando se recompor, Arnaldo fez menção de apreciar pela última vez aquele traseirão, mas foi impedido pela terrível lembrança da voz. Já sem náuseas, acendeu um cigarro e ficou pensando por alguns instantes "que força interior seria aquela capaz de transformar as coisas". Indagou-se também se aquele dia ainda lhe reservava alguma outra surpresa. Resolveu, então, encarar as coisas pelo lado positivo, afinal, tivera muita sorte daquela mulher não ter caído na sua conversa fiada. Ele não se perdoaria nunca se, por causa daquela voz, falhasse na hora H. E justamente com uma loiraça gritando “come on baby”.

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7 comentários:

Philip Rangel disse...

Opa opa...
olha q encontro aki...gostei do seu blog cara.....
to lendo aki o seu conteudo .....
dando a espiada...

abraçao

Ariadne disse...

"Vermelho sexo"? Adorei! Toda mulher conhece essa cor! rsrsrsrs

erica elke disse...

Amei!!! Muito bom!Um abração bem apertado!!!!

R.Paschoal disse...

Ademais, ele poderia descobrir que era... um travesti!!! Olha que merda?

Caio Abreu disse...

Blog legal!
Abçs

Postador disse...

Muito bacana o conto.

Gosto desse tipo de texto, fluente e gostoso de ler.

Também sou redator publicitário, com o agravante de ser também assessor de comunicação de um orgão da OAB. Entendo bem a necessidade de escrever sem compromissos, sem premissas, apenas redação.

Foi bem por aí que eu iniciei o meu blog também.

Grande. Parabéns pelo texto.
Tendo tempo, dá uma olhadinha no meu blog.

Abraço

Gabriel Pinheiro disse...

Caríssimo,
gostei do texto e simpatizei com a proposta do blog, vez que tenho com objetivos semelhantes. Sou jornalista e pretendo fugir, o máximo possível, do engessamento e da temática cada vez menos aprazível dos noticiosos. Por isso escrevo. Também posto contos e poesias, além de crônicas, nas quais critico, inclusive, a própria decadência de certos aspectos da sociedade e da própria imprensa.
Bom encontrar colegas sobre trilhos semelhantes.
Se puder, dá uma olhada lá no www.safenacultural.blogspot.com
Abraços e parabéns mais uma vez,
Gabriel