17.4.10

Espera

Mudou a faca de lugar porque sabia que ela gostava de uma mesa bem posta. Passou pela sua cabeça preparar outro prato mas, como bom apreciador de massas, tinha certeza que aquela cairia muito bem com o Doña Dominga que um amigo havia lhe trazido do Chile. Não conseguia disfarçar que estava nervoso. Chegou até a pensar que a bateria do relógio da cozinha havia acabado, mas o display externo do seu celular insistia em afirmar que ainda faltavam trinta e dois minutos. Trocou a camisa, o CD, a lâmpada da sala por outra de potência menor e não se perdoou por ter esquecido de comprar as velas. Aquele noite tinha que ser inesquecível.

Quando o telefone tocou ele correu para atender. Teve que improvisar uma desculpa para justificar o motivo de faltar, pela primeira vez, ao pôquer da terça. Aquele tinha sido um dia realmente atípico e ele se perguntou como pôde esquecer daquele compromisso tão rotineiro. Mas no fim pouco se importou, o que estava por vir prometia boas histórias para as próximas terças. Nem que ele tivesse que inventar.

Ao longe ouviu o sino da igreja matriz badalar nove vezes. Estava na hora. Foi até o banheiro lavar o rosto e insistiu inutilmente em encolher a barriga. Aqueles quinze quilos a mais nunca tinham pesado tanto. Fez uma promessa que se tudo saísse como ele pretendia, se tornaria um outro homem. Afinal, como já tinha lido e escutado algumas vezes, o amor transforma.

O elevador parou no seu andar e como ele já estava atrás da porta, pôde ouvir os passos em salto alto, para sua angústia, se afastarem em direção a outro apartamento. Soltou o ar que nem sabia a quanto tempo estava prendendo e conferiu no celular que já passava de 21h30.

Pensou em ligar mas lembrou que não tinha o número do celular dela. Na verdade não sabia sequer onde ela morava. Correu para o computador, fez uma rápida pesquisa no Google e constatou que nada ali poderia lhe dar alguma referência ou uma dica qualquer.

Ele sentou sozinho à mesa e pensou como aquele poderia ser um momento especial. Só passava pela sua cabeça as palavras ensaiadas se encaixando perfeitamente num contexto minuciosamente planejado. Pensou também quais seriam as palavras escolhidas por ela para se declarar e, totalmente apaixonada, se entregar em seus braços. E seria exatamente assim. Se ela realmente existisse, não seria de outro jeito a não ser como ele havia pensado. Ele sabia disso. E sabia também que ela não passava de uma ilusão. Que todo aquele teatro, na verdade, era apenas um ensaio de emoções. E para ele tudo aquilo tinha um sentido muito claro. A vida estava passando. Ele estava passando. E criando a sua própria verdade ele tentava chegar, pelo menos próximo, daquilo que um dia ainda esperava viver.

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5 comentários:

Dany Black disse...

Robledinho...
Meu orgulho! Confesso que nas minhas navegadas constantes "eu nunca que havia de achar" esse paraíso cheio de letras e ideias maravilhosas,não fosse o danado do twitter.Quando me deparo com um texto bem trabalhado eu até me emociono e vc, "Seu Robredo", me surpreendeu. PARABÉNS!

Claudia disse...

Adorei cunhadinho.Tá ficando bom dmais nisso ,enh!Adriana Falcão que se cuide.

Anônimo disse...

A espera que as vezes consome o coração, que me irrita tanto, mas que eu ate entendo..
Marcio

Vanessa Dantas disse...

A "mise en scène" da conquista. Que alimenta, acima de tudo, quem a propõe.

André disse...

E ao pobre vencedor, as batatas...
Parabéns pelo estilo desavergonhadamente humano.

Com os cumprimentos de

André Oliveira.
www.ogarrancho.blogspot.com